DE VOLTA!

Acho que está mais do que na hora!

Estou de volta para ativar o meu blog pessoal na intenção de colar minhas ideias, minha loucuras e minha produção. Estou num momento de pura ebulição! De pura criação, na missão de tentar revelar o que acho e penso sobre algumas coisas. Acho que o facebook, o twitter são ferramentas paralelas que podem me ajudar no sentido da divulgação dos meus textos. No entanto, prefiro apenas rabiscar algumas coisas, nunca pensando em ser brilhante na redação. Eu sou prolixo de mais, barroco demais, chato demais… mas sou humano, e tais erros são cometidos na pura condição de minha redenção ou até de expurgas todos os meus fantasmas da angústia. Talvez eu não seja tão habilidoso, tentarei ser honesto com o que escrevo, procurando não exagerar! Acho que nem adianta eu dizer isso, porque tal coisa caira no meu baú de esquecimento.

No mais, dou a palavra pra mim mesmo, sem orgulhos ou passados, ou até celeumas.  Quero escrever de forma simples, sem muita arrojamento e destreza.

Bom, no momento, eu estou em plena produção textual, com a minha peça que vai abordar os crimes da imprensa brasileira, seus desvios e sobre a falta de credibilidade de um veículo que é um jornal. Tem personagens autênticos que buscam, da sua maneira, sobreviver, mesmo que para isso a dignidade seja relegada. O personagem principal é um estagiário que acredita e defende a bandeira da imparcialidade.  Só que ao receber em suas mãos um dossiê uma denúncia que incrimina um dos mentores do jornal, ele terá a tarefa em suas mãos de tentar mudar o jogo, mas a sua imparcialidade vai lhe deixando na mão e a determinação para que ele decida qual lado deve escolher.  Na hora decisão, todos decidem por ele.  É aquela história do Zeca Pagodinho: “camarão que dorme na praia a onda leva!”

A peça também é o meu retorno aos projeto de levar ao palco as minhas ideias!

Então é isso pessoal! Veja alguns artigos que eu escrevi anteriormente e se deliciem!

Um beijo a todos

E sejam todos bem vindos!

 

Carlos Henrique Figueiredo

A MÍDIA E O PODER PARALELO – ENTREVISTA

Entrevista com Cynara Menezes

Em abril de 2012 a revista Carta Capital lançou uma série de reportagens denunciando o vínculo entre a revista Veja e o bicheiro Carlos Cachoeira. Uma das repórteres envolvidas na investigação é a jornalista Cynara Menezes, que concedeu esta entrevista a Traulito.

Cynara Menezes

Cynara Menezes

 

Traulito – Você pode nos contar o episódio passo a passo?

Cynara Menezes – Eu vou dizer a minha percepção desse caso. Às vezes as pessoas me perguntam: “Você acha que o repórter da Veja levou grana do Cachoeira?” Eu não acho. Eu acho que é um caso claríssimo de ambição por parte do repórter. Uma pessoa que se torna redator chefe da Abril não precisa se vendar para ninguém. Ele ganha muito bem, ele tem muitas vantagens. Ele chegou no auge da profissão. Então eu tenho certeza absoluta de que não foi uma questão de corrupção pessoal. Ele teve ambição, se rendeu aquele esquema. Do ponto de vista da revista, sim, é possível falar em conspiração: a Veja montou um esquema de poder paralelo no Brasil. Eles de certa forma utilizaram o esquema de espionagem do Cachoeira para tentar mexer no governo. Será possível mesmo que a Veja tenha se enganado com o Demóstenes Torres1? Eles sabiam a quem o grupo que estava servindo a eles era ligado.

 

Traulito – Ele foi eleito pela Veja um dos grandes moralistas do Congresso.

Cynara – Exatamente. Mas até que ponto a Veja não sabia das ligações dele? O delegado da Policia Federal afirma que sim, que a Veja tinha conhecimento de que os espiões e o Cachoeira estavam ligados a Demóstenes. São histórias recorrentes essas de que a Veja “se enganou” com pessoas. Eles venderam o Collor ao país como uma pessoa incrível, caçador de marajá. De repente, descobriu-se que não era nada disso. E a Revista Veja se disse desiludida. A entrevista do Roberto Civita é uma coisa impressionante: ele diz que quando viram o Collor pela primeira vez, eles pareciam uma mocinha de 18 anos, de tão encantados que ficaram. Ninguém mais acreditou no Collor, só a Veja acreditou.

 

Traulito – O PSDB fez campanha pelo Collor no segundo turno. Eu tinha amigos que eram ligados a uma esquerda do PSDB que fizeram campanha pelo Collor.

Cynara – O Fernando Henrique chegou a ser cotado para ministro do Collor.

 

Roberto Civita é um cara que ainda acredita na Guerra Fria, que é preciso parar o comunismo.

 

Traulito – Que outros arrependimentos houve na Veja?

Cynara – Depois teve o José Roberto Arruda2, que ia ser vice do Serra. Quando ele chorou pedindo perdão à nação, a Veja deu de novo espaço, divulgou a “volta por cima.” Vendeu ao país novamente uma pessoa que não prestava como se fosse boa. Aparentemente iludidos. Aí o terceiro e atual episódio: Demóstenes Torres. Se dependesse da Veja, teria ido para o Supremo Tribunal Federal. Se a CPI não descobrisse as ligações dele, estaria hoje posando de ético e se candidatando a uma vaga no maior tribunal do país, sendo que era um sujeito envolvido com um bandido. A Veja não se iludiu. Ela está há anos tentando impor ao país o seu projeto político. E agora decidiu fazer isso a qualquer preço, custe o que custar.

 

Traulito – Por que a ofensiva?

Cynara – O Brasil de certa maneira é um país cobiçado. E eu acho que daqui para frente a direita brasileira vai fazer qualquer coisa para pegar o país de volta. E eu acho que o jogo daqui pra frente vai ser pesado. Acho que se eles tiverem que guinar para a direita podre, eles vão guinar mais do que em 2010.

 

Traulito – Como que a Carta Capital decidiu enfrentar esse caso? E como você avalia a reação, a tentativa de esmagar a biografia do Mino Carta?

Cynara – O Mino trabalhou lá, ele obviamente tem sentimentos de mágoa em relação à Abril. As pessoas sempre falam: “Ah, o Mino tem mágoas.” Obviamente ele tem mágoa.Você percebe pelos textos que ele escreve. Agora a minha questão é: um homem, um jornalista não tem o direito de desprezar os barões da mídia? Por que não é legítimo esse sentimento? Por que todo mundo tem que concordar e respeitar? Por que uma pessoa não pode desafiá-lo? É esse o ponto. Eu sou uma pessoa que nunca usou esse termo PIG: o Partido da Imprensa Golpista, que muitas pessoas usam. Mas você fica penando que no mínimo conspiracionistas eles são, não é?

 

Traulito – Eu não sei detalhes do caso, mas quando começaram a divulgar as gravações do Cachoeira, foi a Polícia Federal que pôs em circulação essas gravações? Como se localizaram essas gravações entre o Cachoeira, o Paulo Preto3 e o Demóstenes? Como vocês descobriram esse vínculo com a Veja? A partir de que fontes, de que materiais?

Cynara – Tudo começou quando o Jornal O Globo divulgou as primeiras conversas entre o Cachoeira e o Demóstenes. A relação deles tinha começado porque a mulher do suplente do Demóstenes largou o marido para ficar com o Cachoeira. Aí ele disse que ficou amigo do Cachoeira para poder tentar resolver esse imbróglio. Depois houve uma matéria muito esquisita que a Veja fez sobre o hotel de José Dirceu. O José Dirceu deu queixa na polícia porque o rapaz tentou invadir o quarto dele. Seja quem for o José Dirceu, é abominável que um jornalista entre num quarto de outra pessoa. Isso é invasão de privacidade. E aí a revista saiu com a matéria mostrando cenas do corredor do hotel. Ele estava recebendo pessoas do governo e ele pode receber pessoas do governo. E quando começaram a sair as histórias do Demóstenes, começou a correr a informação de que as câmeras que foram colocadas no hotel foram colocadas por esse esquema do Cachoeira, o que já é bastante grave. Além de você tentar invadir o quarto da pessoa, você espionou a pessoa? Você colocou câmeras lá?

 

Traulito – E a faxineira pegou o jornalista entrando no quarto, não foi?

Cynara – Curiosamente, era o mesmo que fez depois a entrevista do Demóstenes Torres que dizia: “Só nos resta o Supremo Tribunal Federal.” É a mesma pessoa. Mas aí existia uma dúvida: eram as câmeras do próprio hotel ou eles botaram um segundo esquema de filmagem para pegar as pessoas? O delegado disse que eles tinham retirado as câmeras originais do corredor, dizendo que estavam com defeito, e puseram as câmeras deles, para depois pôr de volta as do hotel. Essas mesmas pessoas passaram os últimos dois anos dizendo que a gente vivia sob um estado policial e que o governo grampeava todo mundo. Eles diziam que o governo grampeava Gilmar Mendes4 e Demóstenes Torres, mas o grampo nunca foi mostrado. Quando os rumores começaram a ficar muito fortes, a própria Veja publicou um texto do Cachoeira conversando com o Jairo, que é o repórter espião, tentando inocentar o empregado deles. Mas eu acho incrível que nenhuma das gravações envolvendo o Policarpo5 tenha vindo à tona. A Veja com segurança diz que não são 200, são só 2. E eles tiveram acesso às gravações, nós não conseguimos. O poder deles é tão grande, que eles blindaram as gravações relacionadas ao Policarpo.

 

Traulito – Mas os grampos mostram o Cachoeira indicando até a página onde ele quer que sua opinião apareça na revista, não é? Ele tinha poder de edição, não?

Cynara – Exatamente.

 

Traulito – Com quem são esses diálogos?

Cynara – Com o Cláudio Abreu6, o cara da Delta: “Manda ele botar na seção Radar.”

 

Traulito – Você acha que existem gravações dele com o Policarpo?

Cynara – Elas existem, mas eles conseguiram blindar isso. A gente não conseguiu ter acesso até agora. Eu acredito que elas vão aparecer mais cedo ou mais tarde. Com ou sem CPI, uma hora esses diálogos vão vir à tona.

 

Traulito – A Veja, nos últimos anos, acentuou uma linha conservadora, grosseira até. Chega a ser vulgar o estilo de propaganda política deles. Você acha que essa radicalização à direita da Veja se deve a quê?

Cynara – Acho que eles não aceitam de maneira nenhuma que o PT seja governo. Eu pensava a princípio que fosse uma coisa só econômica, que não houvesse ideologia por trás. Mas recentemente eu vi uma entrevista do Roberto Civita no Valor e você percebe que tem bastante ideologia. Ele é um cara que ainda acredita na Guerra Fria, que é preciso parar o comunismo. Ele é bem americano nesse sentido. Então eu acho que é uma coisa bem ideológica mesmo. Eles têm raiva. Se não fosse o PT, fosse o PSOL seria a mesma coisa.

 

Traulito – Mas do ponto de vista econômico e mesmo político, o governo Lula tem ajudado gente como eles.

Cynara – Eu acho que o projeto deles é de centro-direita. Acho que eles se alinham mais com os republicanos dos Estados Unidos. Semana passada eu vi esse cara, eu sinceramente acho ele doente, que é o Reinaldo Azevedo. Ele escreveu que o Haddad ia se encontrar com a militância gay do PT, que quer inclusive que travestis sejam professores. Acho incrível esse tipo de pensamento: qual o problema de um travesti ensinar? Essas pessoas têm medo de que a homossexualidade seja algo contagioso. Se o seu filho for ensinado por um professor travesti, ele vai virar automaticamente gay. Eu não consigo entender qual a racionalidade disso. E fico muito triste quando leio essas coisas. Eles acham que os travestis têm que ser putas para o resto da vida?

 

Traulito – Mas você acha que essa imprensa se une porque também tem rabo preso com o pior da elite nacional?

Cynara – Todos os grandes veículos só pertencem, como disse o Lula, a nove famílias. E eles já estão dominando também a internet. Se a gente deixar, não vai ter espaço para ninguém, só para as grandes corporações. Qualquer pessoa que desafia algo, eles vão massacrar. Eles vão se unir para massacrar.

 

Traulito – Parece que tem um caráter monopolista mesmo.

Cynara – Eles querem manter como está o negócio. Essa semana aconteceu uma manifestação gigantesca no México. Os mexicanos estão putos com os meio de comunicação de lá. Faz 15 dias saiu uma denúncia de que o candidato do PRI, que é apoiado por toda a mídia, pagou os meios de comunicação para falarem bem dele. O apresentador do principal telejornal do país recebeu dinheiro. Aí eles fizeram uma manifestação. Aqui só saiu: “Estudantes do México vão à rua contra ‘manipulação’ dos meios de comunicação.” Ninguém conta que houve uma mobilização forte, que eles podem perder esse poder pela primeira vez no México.

 

Traulito – E o ódio que elestêmda Kirchner na Argentina por peitar o Clarim?

Cynara – Vocês imaginem o que seria aqui diante do quê a Cristina fez. Para você assistir futebol na Argentina, você tinha que pagar, era tudo cabo, tudo pay-per-view. A Cristina estatizou o futebol: só quem passa agora é a televisão estatal. Os donos da mídia ficaram completamente enlouquecidos. Imagina se fizesse isso no Brasil? Se tirassem o futebol da Globo e pusessem na TV Educativa, eles derrubavam o governo.

 

Traulito – Ela é também uma pessoa mais combativa do que o governo do PT tem sido.

Cynara – Ou talvez a mídia daqui seja mais perigosa que a de lá.

 

Traulito – Você acredita que a internet equilibra um pouco esse quadro?A gente tem hoje blogueiros extremamente visitados, acessados, como o Luís Nassif ou mesmo o Paulo Henrique Amorim, que enfrentam o quadro da mídia concentrada.Você acha que isso tem algum efeito?

Cynara – Dá para fazer bastante barulho. Mas precisava ter um portal. Um portal poderoso, porque os portais estão todos nas mãos deles. Eles dominam os portais. Era o que eu queria: ajudar na criação de um portal alternativo.

 

Traulito – Agora, por curiosidade, como funciona no caso de um jornalista que começa a atuar de forma independente? Como ele sobrevive se ele tem um blog, alguma coisa assim?

Cynara – Nós da Carta sempre pensamos que depois de lá não vamos mais trabalhar em lugar nenhum (risos). Eu trabalhei na Veja por oito meses. Horrível. Foi uma experiência bem ruim, um equívoco. Depois trabalhei três anos na VIP. Foi confortável, ganhava bem, não tinha dores e cabeça, mas o que me acrescentou? Nada. Nada. Eu não tenho o menor desejo de trabalhar outra vez em um lugar desses. Por outro lado, eu tenho muitos sonhos ainda e acho possível outro tipo de jornalismo. Acho que a gente pode ainda inventar. Nessa história do México, um cara escreveu um artigo muito interessante. A Time fez um estudo sobre a cabeça das pessoas que nasceram na era da internet. E eles dividiram em dois grupos: os nativos digitais e os imigrantes digitais. Imigrantes digitais somos nós que nascemos depois, a gente que conheceu o online já adulto. Os nativos digitais, a cabeça deles funciona diferente. Eles mudam de plataforma 27 vezes por hora. Eles não se prendem a nada. Então eles saem do celular para o tablet, do tablet para a TV. Isso aí vai mudar o modo do jornalismo: o futuro da mídia é outro. A gente está engatinhando nisso ainda. Se por um lado eu sei que eu não vou mais trabalhar na Abril, ou talvez não vá trabalhar na Veja ou na Globo, eu acho que existe um mundo de possibilidades que a gente ainda nem conhece.

 

Se tirassem o futebol da Globo e pusessem naTV Educativa, eles derrubavam o governo.

 

Traulito – Você acha que o jornalismo reproduz uma tendência geral à troca de favores, ao empenho pela circulação.

Cynara – Acho, mas também existe o contrário. Quando eu vejo ocuparem Wall Street, quando eu vejo esses meninos no México ou os indignados na Espanha, eu percebo que o discurso do “outro mundo é possível” também tem muitos seguidores. É com essas pessoas que temos que conversar. Olha a fila que está aí fora, na porta do teatro de vocês. Uma peça de esquerda radical e as pessoas estão interessadas. Mas o modo de pensar do seu trabalho tem a ver com a atualidade. Não foi a direita que queimou o filme da esquerda, foi a esquerda que queimou o seu próprio filme cometendo erros. Esses meninos que fazem esses movimentos pelo mundo, eles são a esquerda legítima. Mas vá tentar dizer a eles que são de esquerda. Eles não aceitam, porque muito estrago foi feito e se dizer de esquerda virou uma coisa feia. Mas é preciso resgatar o verdadeiro sentido disso.

 

1 Demóstenes Torres, filiado ao DEM de Goiás, foi eleito senador da República em 2002 e assumiu em março de 2011 a liderança da bancada dos Democratas no Senado.

2 José Roberto Arruda foi eleito senador em 1994 pelo antigo PP. Em 1995 ingressou no PSDB e foi eleito governador do Distrito Federal em 2006.

3 Paulo Vieira de Souza, ou Paulo Preto, foi diretor de engenharia da Dersa, estatal paulista responsável por algumas das principais obras viárias do país, entre elas o Rodoanel.

4 Gilmar Mendes foi Advogado-Geral da União no Governo Fernando Henrique Cardoso e empossado ministro do Supremo Tribunal Federal em 2002. Foi presidente do STF de 2008 a 2010.

5 Policarpo Jr. é diretor da sucursal da Veja em Brasília e um dos redatores chefes da revista.

6 Cláudio Abreu é ex-diretor da empreiteira Delta Construções, empresa responsável por várias obras estatais e federais, licitações e prestação de serviços.

Entrevista tirada da Revista Eletrônica “Traulito”, nº 7

 

Braços dados: redes sociais demonstram em que lado verdadeiramente esse pseudo esquerda está

A ARTE DE SER DO CONTRA OU O CORPO DE CHÉ GUEVARA E UMA BARATA NA PAREDE SÃO A MESMA COISA

Yoani Sanchez: a musa dos dois partidos: PSDB e PSTU

Yoani Sanchez: a musa dos dois partidos: PSDB e PSTU

 Por  CARLOS HENRIQUE FIGUEIREDO

Ao me adentrar no banheiro, ouço o comentário do grande jornalista tomador de sorvete em passeata contra a fome, o senhor Arnaldo Jabor, tecendo considerações sobre um tal “regime falido de incompetentes revolucionários de Cuba” ao defender categoricamente o desbunde à liberdade de expressão de Yoani Sanchez no Brasil. Depois, vou até o meu computador e vejo um texto escrito por um militante do PSTU, no facebook, falando dislates sobre o protesto do PCdoB e da UJS, ao receber a blogueira cubana.

Através dessas atitudes tão parecidas e de lados não tão oposto assim, pergunto-me aos meus queridos botões: o que faz cogitar um militante que se intitula de “esquerda” criticar a própria esquerda? Talvez seria simples decifrar tal enigma se disséssemos que é falta de ciência, conhecimento ou sei lá mais o que. Ou talvez seja uma necessidade histórica de revisitar certos princípios ou ajustar certas arestas do passado. Todavia vejo que nenhuma das questões por mim levantadas são pertinentes, até porque falta de ciência não é, pois há um vasto debate já traçado e inúmeros são os tratados que podem certamente trazer a luz de compreensão. E nem mesmo é uma revisita aos princípios, pois há um desconhecimento quase que completo das questões que levaram a esses tais princípios chegarem até nós e, até mesmo, sabemos claramente que tal partido mencionado, o PSTU, nem sequer existia quando tais princípios eram fundamentados no Brasil.

Ora pois, o que de fato se faz ao criticar a esquerda?

Ao ler o programa da 1ª e única Feira Brasileira de Opinião de 1968, escrita pelo teórico teatral Augusto Boal, deparo-me com uma crítica localizada numa época distante, em que o encrudescimento do Regime Militar às porta do AI-5 fizeram com que o dramaturgo pensasse veementemente sobre as condições limítrofes da “arte de esquerda” e sua situação naquele momento. Já nas primeiras linhas, Boal vocifera: “Os reacionários procuram sempre, a qualquer pretexto, dividir a esquerda”. Ele, na certa, estava sentindo o incomodo entre a luta do Teatro de Arena e a postura açodada do Grupo Oficina. Naquele momento, a “Roda Viva” de Chico Buarque, entre fígados e rastejos dos atores se oferecendo na plateia aos apupos e sons de “me compra, me compra, me compra”, o Tiradentes herói inconfidente e a estátua da liberdade feita por Paulo Autran estavam ameaçados de receberem o signo do cálice, a força da repressão. Nesta ocasião, o texto demonstrava que o princípio da arte de esquerda era o combate contra os brucutus, os CCC´s; o mercado consumidor do teatro, os interesses do lucro imediato, o apetite da plateia que se delicia aos ditames estrangeiros. A arte de esquerda, segundo Boal, deve estar comprometida diretamente com a inclusão do povo como mediador e interlocutor da arte. E, concretamente, esse povo é aquele que, em suma, detém e concentra as forças de produção. A arte de esquerda tem que ser dirigida a ele, o povo, pois “a arte é sempre manifestação sensorial da verdade” e estar distante dos elementos infra estruturais é no mínimo “crime”. (grifado por ele). Entretanto, é necessário entender e superar alguns conceitos da esquerda, até porque, naquele momento, existia os “neo realistas” que defendiam o registro natural e imediato dos partícipes da sociedade e seus conflitos habituais e cotidianos, os “exortistas” que defendiam uma arte de exortação da cultura local, brasileira, nossa, repaginando elementos externos para a nossa realidade e os “tropicalistas” que nada diziam ou se dissessem nada era compreendido, pois não cabia definição. Nesse trânsito aparente de tantas tendencias, cantar “chiquitas bacanas e outras bananas” representava o estar alheio aos interesses e às demandas reais do povo. Somente uma síntese dessas tendencias faria estar a salvo a tal arte de esquerda, que em seus vieses, sentia-se ameaçada pelo mesmo divisionismo e pela julgo reacionário no âmago de suas conjecturas, pois, segundo Boal, “A luta que deve ser conduzida contra eles é às vezes, por eles conduzida no seio da própria esquerda”

Nesse ínterim, podemos adivinhar o que é, de fato, criticar a esquerda, pois o problema está na sua feitura. A famosa e sempre oposição de esquerda, protagonizada pelo PSTU (dissidência do PT) quer provocar um “boom” na própria esquerda na inventiva de sobressair-se aos interesses individuais de seu partido, ou seja, numa proclamação puramente “tropicalista” de querer estar na posição do “contra a tudo isso que está ai” e definir-se ora no “nada dizer” ou no “se dissessem nada era compreendido”. Para eles, dá tudo no mesmo: o corpo de Che Guevara e a barata na parede são a mesma coisa. Chega a ser ridículo. Transformam o movimento estudantil numa corrida de derby ou num espetáculo de circo, devido aos bumbos e aos gritos de “tem goiabada”. Nessa batalha de salão, há mais confetes e serpentinas do que opiniões políticas, já que nunca participaram, de fato, na luta pelos 10% do PIB para a educação e nem dos 100% do royaltes do pré-sal. São contra os programas sociais do governo, são contra ao ENEM (ou pelo menos, como foi dito anteriormente, como tropicalistas da esquerda, ficaram na posição do “nada dizer”), nunca debateram de forma clara e objetiva (ou seja , ficaram na posição do “se dissessem nada era compreendido, pois não cabia definição”) a questão das cotas raciais e por ai vai. E, por fim, na tentativa frutada de revolução (já que de fato não representam em nenhum momento o povo, nem os compreende, pois está distante, nos moldes estrangeiros) se vestem de saco ou andam de cabelo verde pela rua numa tentativa de ser notado, em nome da liberdade do povo.

É de chorar de rir ou rir de tanto chorar?

Entretanto, se todo o problema fosse esse, talvez algum notório respeito, os nobres trotskistas receberiam, mas diante dessa postura oportunista de “auto crítica da esquerda”, nós perguntaríamos novamente: o que faz o partido criticar tais pontos de vista de forma a se igualar ou até mesmo verticalizar as suas ideias ao campo da direita? Talvez a geometria euclideana explique, pois a intenção de voltar-se a esquerda da esquerda é um movimento cíclico, circular e, no caso, ao imaginarmos uma esfera, quem vai para esquerda da esquerda, vai para direita. Ou, quem sabe até poderíamos pensar que se limitar aos preceitos vanguardistas, aloprados e sem nexo, perdem-se numa linha e nunca se atem a um ponto.

Ao deixar a matemática de lado, podemos perceber que ao se igualar ideologicamente a direita, numa tentativa atabalhoada de desmoralizar a esquerda, o PSTU se vende aos interesses imediatos da acomodação das circunstâncias, do apoio moral de financiados pelo poderio norte americano, na tentativa de acabar com tais intenções “stalinistas”. Para eles, “todos são passíveis de culpa, já que não nos entendem e eu não os compreendo”. Este reducionismo é a prova cabal de falta de debate e de entendimento, porque “se você não for do nosso partido é stalinista ou atende aos interesses do capital”, numa prova mais do que contundente de um maniqueísmo esquizofrênico e alienado de pseudos comunistas que disputam para ver quem mais leu as notinhas de rodapé de Marx. Se proclamam Leninistas quando na verdade, o próprio Lenin os rechaçou. Uma barbaridade teórica que chega as raias do cantar “chiquita bacana e outras bananas”. E como já se percebe, o pior está no conceitual, pois existem até Heideggerianos no partido! Sim! (Tá boquiaberto? Não é pra ficar não!). Aliás, eles chamam o próprio Stalin de amigo colaborador do nazismo, mas aceitam heideggerianos no partido. O que pesa mais? O boato sem nenhuma prova de “boca de Matilde” de que Stalin matou mais de milhão ou um Heidegger ministro oficial da educação alemã do III Reich? Agora imaginem, senhores, pensar o que é isto – o ser do Ente, contextualizando com a contrarevolução permanente! Ou seja, chiclete com banana e o samba como esse vai ficar pior.

E ainda nos resta, no fim das coisas, ainda uma pergunta: entre tantos conceitos e equívocos, ainda podemos pensar no pior? Se o que nos bastasse fosse o conceitual, estaríamos felizes em dizer que eles são extremamente napoleônicos, mas, como diz Boal, é com este conceito “chacrinha e dercy de sapato branco” que querem organizar a sua revoluçãozinha, com panfletos ilustrados com notícias da imprensa golpista, numa armação escabrosa de tentar “esclarecer” os estudantes. E nem mesmo se importa com o que de fato a imprensa pensa. Como já foi dito em assembleias “não importa se a imprensa falar mal da UNE, o que importa é que ela fala aquilo que é de fato real”. Usa em seus boletins recortes da Veja e se vangloriam como “sabonetes da alma” quando sai uma notícia de desmoralização da esquerda. São propagadores da mídia servil, são vassalos dos reis da imprensa nacional e das corporações globais, num contexto ideológico de usar fontes garrafais de jornais jacobinos, que cortam cabeças sem o direito pétreo da defesa. Basta se amofinarem num pátio central de uma faculdade e organizarem sua pseudo revolução de bandeiras, panos, sacos, confetes, bumbos, serpentinas e raquetes, chamando jornalistas do O Globo, para fazer a manifestação contra os mosquitos, sendo testemunhas do desejo de privatização da universidade pública e pelo brinde ao sucateamento da educação do país. Um verdadeiro charivari! E, como cereja de bolo, são adeptos contumaz do “diga o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Chamam os outros de fascistas, de autoritários, mas na verdade organizam eleições por debaixo dos panos na Pós Graduação, em decisões escamoteadas de mistérios e de muito esconde-esconde. Fazem, a socapa e a sorrelfa panfletos prontos, sem decisões de ninguém, em CA´s e DA´s. Ficam 7 anos no poder do isolamento, do autoritarismo hediondo, servindo-se da mentira e da acomodação. Se pintam de democráticos, mas na hora que a decisão deve ser tomada, é o “vem a nós e nosso reino nada”.

Ao defenderem a blogueira Yoani Sanchez, nada mais me surpreende, pois um partido que alia seus liames à defesa de uma financiada pela CIA e que executa toda esta maquinada e desenfreada atitude descabida tem compromissos claros, não com a esquerda, mas com seus princípios particularistas e aproveitadores. O debate fulcral é claro e o inimigo é real e nunca abstrato, amorfo. Deve ser derrotado! Pois, reação é, na verdade, segundo Boal, uma entidade concreta, organizada e eficaz e que para desbaratar essa organização, transvestida de pseudo esquerda, reacionária e intolerante é necessário fazer uma rediscussão real do campo da esquerda, o que eles não querem fazer e nunca irão se propor ao debate. Assim, termino, o texto, mas antes, eis que surge novíssimas questões, que ultrapassam a linha do tempo:

Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?

Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?

Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?

Braços dados: redes sociais demonstram em que lado verdadeiramente esse pseudo esquerda está

Braços dados: redes sociais demonstram em que lado verdadeiramente esse pseudo esquerda está

 

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A INSTABILIDADE HUMANA

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A morte de um empresário: concreto e sangue misturados

Será que estamos preparados para uma possível derrota. Talvez, a santa competitividade nos redima.

Por Carlos Henrique Figueiredo

Num alto de um prédio, Tiago teve a impressão da morte e de um gélido sentimento de dor. Esta sobre o abismo de si mesmo. Não se polpava. Queria se ver sobre o mar de sangue de seus próprios pedaços. Queria o concreto e o sabor do cimento pelo seus lábios. Queria que seu mundo ouvisse.

Estava cansado. Desabar, verbo necessário

Lá embaixo, o desconhecido outro mundo, mundo nebulizado de morte. O fim chegava. Ele se jogou. Um mundo inteiro lhe passou por momentos. Ninguém escuta. Somente os gritos, as dores de seu inconsciente, esse menino perigoso.

Será possível algo ser tão vivo em nós como o inconsciente?

Parece tão inevitável o seu ataque, a sua luta, seu gemido sem o consciente perceber que ele age impunemente. Um micróbio potente, um germe, um bicho, um demônio. Tiago entrou em contato com o solo e se misturou sobre o cimento cru: um canteiro de obras. O sangue fervente e as últimas trepidações de seu corpo em pleno requem sinfônico dos neurônios: Tiago morria. Que estranho essa coisa chamada morte. Morrer é tão mais fácil, do que a viver a própria vida. Viver é um longo processo, a morte não: parece uma transição, um ritual de passagem. O além é que é a vida pós a morte. A morte nunca deveria ser o oposto da vida. A vida deveria ser a continuidade…. enfim esquecemos! O importante é entender esse processo de mistura entre o concreto e sangue, pois as coisas se processavam numa eterna confusão. O trânsito parou e os minutos foram de plena curiosidade sobre o morto. Muitos se aglomeravam na chance de ver o inevitável: a falência. Falir é um continuum da nossa condição. Todos aqueles que não esperança se apegam no sucesso, a falência é um mo

nstro presente. Muitos que estavam naquela nobre situação de estar vendo o cadáver, tiveram um estalar em suas consciências: é necessário preservar-se do fracasso. Tiago era o exemplo vivo disso. Era a prova material, que nenhuma Teoria do Domínio do Fato poderia não ser testemunha.

O corpo era o que condenava os seres ao fracasso

Por isso, a luta daquelas pessoas ficaram mais frequentes! Mais duras! E assim crescia e cresce a necessidade pela competitividade. Na morte do outrem, na falência alheia! Num estante de vilania, alguns riram de Tiago, numa demonstração vital de conquista.

O riso, o deboche e o escárnio era a alma dos vitorioso, mas era também o choro humano dos que pensavam no seu futuro.

COMÉDIA E PERSONAGEM

"O personagem é o ponto vital de grandes transformações e é a partir dele, do típico da nova comédia"

“O personagem é o ponto vital de grandes transformações e é a partir dele, do típico da nova comédia”

Omnes creaturae sunt umbrae, resonantiae et picturae, sunt vestigia et simulacra et spectacula”

(LEEW, G. V. Der. In: Phanomenologie der Religion)

Seguindo o mesmo caminho de Pierre Grimal em O teatro antigo, começaremos a partir de uma análise estrutural da comédia de Aristófanes. Não, Ploutos, mas As vespas. É interessante observar que todas as peças foram encenadas num período decisivo para a Grécia: a guerra do Peloponeso. O ponto central desta comédia é a trama que retrata a história de Filocleon (aquele que ama julgar) e Bdelicleon (aquele que odeia julgar): a relação é de pai e filho, respectivamente, sendo o pai um homem que vivia para a sua polis e para a sua melhor aptidão: julgar. Já o filho odiava a atitude a ponto de raptar um consanguíneo seu, mantendo-o em carcere privado no próprio palácio. O que se vê estruturalmente é uma cena da vida privada (já que a relação é de pai e filho) e uma trama concentrada na relação moral da família, em analogia a própria polis. Após o carcere, há tentativa de fuga do pai, mas o coro vestido de vespas o impede de tal feitio (em menção da parte da Odisseia, sobre o Ciclope). Vendo que não poderá sair, o legislador se conforma e cai em absoluta tristeza. O filho vendo que seu pai fica esmorecido, convence-o a reproduzir a polis dentro do seu palácio e organiza um julgamento. Ao começar a encenação, define-se os papeis: alguns escravos serão os oligoi; ele, o legislado, sempre sobre a face da loucura de defender; o caso é o roubo de um queijo siciliano; o réu é um cachorro, alguns do coro como acusantes e outros vestidos de cachorro. Depois, acontece a votação e a urna é burlada pelo próprio Filocleon, para que o cachorro seja inocentado. Depois da contagem, o resultado fraudulento: o cachorro é inocentado e Filocleon desmaia de tão feliz pelo fato de não ter conseguido antes absolver ninguém. A figura do legislador é de inteira infantilidade e de irresponsabilidade diante da sua própria corte. Esta é a imagem impressa da aristocracia como aquela que corrompe, que destrói a supremacia do demos é representada por personagens característicos e cristalizados por um gênero: a comédia nova.

A nova maneira de se fazer comédia se concentra basicamente na praticidade que um personagem possui. Substitui a parábase e a visão do coro e o repõe como qualidade visual, como acessório cênico, como se vê até hoje. A função do personagem é isolada quando não mais se reproduz simples elementos humanos, mas tipos sociais relevantes para o andamento e para a trajetória da trama. Essa disposição fixa permite reinventar novas fórmulas de prender o espectador, a contrário da inovação da tragédia com Eurípedes, que mostrava mitos já condensados e apreendidos pelo espectadores. Este público que quer ver novidade acredita na nova comédia e participa dos festejos, dos festivais e das apresentações. A nova comédia prepara, a partir do artifício da trama, uma certa expectativa que nunca se sabe se as artimanhas do escravo habilidoso vai enganar realmente o objeto da intriga. Isto é a representação da necessidade humana do engano, do disfarce, possibilitando a criação de comédias que contenham homens reproduzidos pela realidade, mas de maneira característica. Uma forma de catarse, que inserindo e apontando personalidades da vida quotidiana, tem como princípio distinguir desta caricatura, ordenhada pela pilheria Por isso, que Pierre Grimal, ao tentar definir que personagem é esse da comédia nova, ele define um gênero para a posteridade, a partir da relevância do personagem, frente a narrativa:

““…está a nascer, uma comédia, como conceberão os Modernos, está a nascer, uma comédia baseada numa intriga, levando à cena menos pessoas do que personagens, nas quais os caracteres tradicionais, típicos são “moldados”, segundo a situação específica em que o poeta os situa. Por outras palavras, a personagem representada no palco não será nunca “um qualquer”: será um jovem, um velho, com bom ou mau caráter – o que forma dois tipos distintos – uma boa ou má cortesã, etc” (GRIMAL, 1978, P.p. 66 e 67)”

O personagem é o ponto vital de grandes transformações e é a partir dele, do típico da nova comédia, que anunciará o romance, um grande acontecimento na história da literatura ocidental. E o questionamento de Grimal ainda vai mais longe quando tenta entender o porquê dessas transformações. Segundo a sua própria resposta, a ordem é de posicionamento político, que transfere o foco narrativo da vida privada para o âmbito da vida particular. Esta forma aristocrática de ver o mundo é uma tentativa de reproduzir a vida pública através da estrutura moral familiar. É como se a família fosse a sombra da projetada da vida pública, dando-lhe contornos de instituição de poder, atrelando-se ao discurso pleno de relações simbólicas dos procedimentos da polis.

Entretanto, a vida privada conserva o seu recato, o seu sigilo, o seu segredo com o selamento das relações intimas. O amor descrito pela comédia é um amor permitido, aceito, conveniente, que é a dos jovens em plena puberdade, sendo-lhes permitido o acesso livre a mulher extremamente pública, a cortesã que lhe desperta um amor impossível, em plena desventura. A figura da cortesã é da mulher dos perigos, da ardilosa situação, mas que pode ser útil em certos momentos de intriga: a mulher é dona de uma especialidade que nenhum homem tem: a arte de enganar. Somente a mulher, a que tem menos fé (fide minus = feminina) tem em si o dom de iludir, a malícia que toda mulher tem. Todavia, esta malícia é para os homens, os homens a despertam, os homens a desabrocham, então há um paradoxo: o que é inato da mulher é despertado pelo o homem a serviço de uma intriga. Então, o ponto central da trama é a mulher e a instituição, tanto pública como a privada: as duas são fruto da constituição da imagem da polis. Ambas devem fiar-se na tradição, na observação do povo, na configuração da moral. A mulher e a instituição pública são UM produto social que redimensiona para serventia deste homem público. Já a mulher e a instituição particular são UM produto da própria instituição a serventia da própria particularidade, sabendo-se que ambas terão que permanecer virgens, invioláveis para garantir a continuidade da família e manter vivo os laço de consanguinidade

E quem protela por isso? O homem que está distante da juventude: o velho. A figura do velho é aquela que deve manter suas ideias dentro da severidade e da austeridade e não se deixar levar pelas desventuras. O velho traçado pela nova comédia é de caráter desmedido e que traz danos a sua consanguinidade. O velho será objeto da trama, pois ele tem, no papel da instituição, o grande elemento antitético: a possibilidade de seguir em detrimento da severidade ou prosseguir suas aventuras adolecis. Ele será ridicularizado, já que dentro da instituição ele tem papel fundamental e se vê degenerado pela relação abusiva de poder com seus filhos e mantendo relações amorosas não-permitidas. Este é o velho da instituição que é objeto do riso mordaz, azedo, crítico e nada condescendente e que é enganado de maneira hábil por um escravo, uma humilhação tão grande que reduz a imagem dessa figura hercúlea a um frívolo caricato, o que interessa, evidentemente, ao registro da comédia. O jovem, sim, pode ter as desventuras que quiser, mas o homem que tem uma responsabilidade pública, uma posição significativa no estado, estará distante de qualquer atitude amorosa. A necessidade de retratar, ferozmente, o comportamento do velho frente ao amor é a ferramenta para desmanchar a insignia da forte instituição, ilesa de qualquer comportamento transviado: daí, hoje o que seria o Bill Clinton, o Renan Calheiros ou qualquer homem velho, de extremo poder se vê ameaçado pela inconstância do amor? Torna-se velho babão, ridículo. E no entanto, uma boa noticia de envolvimento em escândalos amorosos, desmoraliza-se de vez a reputação deste homem.

Sendo assim, tracejou-se os personagens característicos desta nova comédia: o velho, o jovem, o escravo, a mulher (pública e privada) e a instituição (pública e privada). Todos eles sobre o estatuto que lhe garantem um papel preponderante sobre o palco, sobre a encenação: são personagem e, segundo Décio de Almeida Prado, constituem a totalidade da obra, sendo a partir dele que toda essa força motriz que se engendra pela narrativa, pelo ato. Isso se dá pela carnalidade viva do ator, falando do homem pelo próprio homem. Assim, Aristóteles define a diferença entre o que é o personagem sobre o vínculo da ação e da narração: o poeta pode imitar objetos na forma narrativa assumindo outra personalidade ou a sua própria sem mudar nada, já na forma ativa ou dramática (que Aristóteles define como forma mediante todas as pessoas imitadas, operando e agindo sobre elas mesmas) há uma relação de reprodução ativa diante daqueles que imitam agentes, daí vem o sentido de drama, por fazerem aparecer e agirem as próprias personagens, dando vida, presentificação e tal carnalidade.

Ainda assim, o universo em que o personagem se insere, permite que, de forma persuasiva, traga a realidade da história, dispensando o narrador. Opera a transformação da narração em ação. A plateia se vê obrigada a entrar em contato com esta realidade que lhes entra pelos olhos. Daí vem a origem da etimologia da palavra teatro, que é theatrón, lugar aonde se vê. Em sua constituição, o teatro é um veiculo de discurso e simbolicamente alterável, já que é educativo, elucidativo e imageticamente ideológico, sendo de sua peculiaridade a ação transformadora de narração para ação, ou seja, o mecanismo do drama.

O personagem cômico veio do komos para garantir sua vida própria e, desta forma, um signo de liberdade e de força que impulsiona o seu processo crítico. Essa função de analisar, criar outros personagens, ampliar e dar ressonância moral, ultrapassando as esferas do individual e do particular, posiciona o personagem como um primeiro crítico do teatro, dando-lhe expansão de possibilidades e isto é a convenção que o próprio autor utiliza frente aos recursos dramáticos. É interessante perceber que o autor desloca a impressão do texto puro, para as impressões e marcas pessoais, através da força e da liberdade expressiva do personagem. E ele é uma máscara, uma armadura fantástica que o autor utiliza para demarcar suas impressões, não ultrapassando a esfera do individual e do particular.

Na comédia aristofânica As vespas, o que fica impresso é o descontentamento de um ator , que é povo, que participa da vida política de Athenas e que desenvolve as suas impressões e seus tons dentro de uma impressão sobre o estado. Essa imagem destorcida daquele que julga é uma avaliação permanente que só pode ter força sobre o reconhecimento da vivência e da vida do personagem em plena ação. O que se vê, a partir de um conceito defendido por Eudoro de Souza é que “Toda criação é signo” e por extensão, o riso é signo criativo da comédia, e assim sendo é a cerimonialidade que lhe dá este impulso.

Carlos Henrique Figueiredo

UMA TRAJETÓRIA DE CURVAS E TRAÇOS

Olhar para o mundo é olhar para a realidade

Olhar para o mundo é olhar para a realidade

Ao resumir o trabalho de uma grande artista, cometemos o erro de declinarmos diante dos passos já caminhados pela arte. Por isso, não vou destacar trabalhos ou até mesmo obras do grande camarada Oscar Niermeyer, mas vou acentuar sua produção estética, levando em conta uma vida de realizações amplamente reconhecidas pelo mundo a fora.

O contorno simples, e a curva suntuosa, eleva sua determinação ao concreto olhar do objetivo, as obras não atendem ao puro vanguardismo ou ao caráter academicista, mas ao princípio prático, que reúne em si o seu principal contexto: a sua arquitetura atende ao público, eliminando marcas da produção privada, pura e simplesmente. O seu legado não é só mesmo referência de uma nova posição de uma construção, mas o retrato de um movimento cotidiano de um país, de uma realidade curva e não retilínea. São formas desobedientes e dissonantes que ecoam sobre uma poesia lenta e marcante de um povo, o brasileiro.

O que o levou a desenhar efetivas rubricas? O que faz de um poeta da curva, uma imagem dizível? O que a metáfora, o discurso, as silabas, as palavras em si não pronunciam e seu tracejado firme emplaca? Os momentos em que a criatividade enumerava posições e mostrava o seu cunho ideológico, a marca, o selo de sua dúctil convicção, contra as artimanhas do poder atributivo e do valor especulativo, arrojava-se em plataformas, em edificações condizentes e reafirma seu propósito real, de levar adiante um projeto socialista que tem como elemento fundante a igualdade social. Um gênio nunca se mede pela capacidade de realizar, mas pelo firmamento de uma chama, que é a viva condição de querer resistir. Sua forma nunca sairia da memoria de seu povo, permanece como a natureza frente ao universo, em que sua monumental realização humilha e deixa estático e inerte tal homem em observação a si mesmo

Esta é uma singela homenagem ao grande camarada, que nos deixou hoje, mas torna-se memória, na ação do tempo em pleno espaço

Carlos Henrique Figueiredo

 

O poeta das curvas, das linhas sinuosas

O poeta das curvas, das linhas sinuosas

 

 

EM QUANTO ISSO NA JOAQUIMLÂNDIA: “SINE CRIMINE HOMO NON VIVIT!”

O anti-heroi

A honestidade é a reprodução do medo!

Tomé é um funcionário público que busca a verdade em tudo! Ele trabalha numa repartição ligada ao Ministério da Fazenda. Ele geralmente toma seu cafezinho às dez horas da manhã ou às três da tarde. Homem seríssimo! Honesto! Incorruptível. Seu caráter probo emocionava

 

Sua retidão é tão temerária que muitos do seu convívio de trabalho desconfiavam de qualquer desvio de conduta. Ele era um simulacro, um exemplus. Nem acima das suspeitas ele estava, mas distante do bem e do mal, de qualquer julgamento ou correspondência. Tomé era um homem honesto de verdade! Talvez Diógenes, com sua lanterna a azeite em punho, tinha achado hoje o tal homem honesto tão perquerido

 

“Não! O Tomé? Duvido”. Foi o que disseram quando o viram roubando um comprimido da mesa do chefe.

 

“Pois é, meu filho, o Tomé! A câmera filmou! Flagrou ele direitinho! Bem em cima do lance”. Dizia outro aos berros, indignado pela condição larápia do coitado que vivia com fortes dores no estomago. Era difícil negar! Nem adiantava dar uma de Nelson Rodrigues e dizer que a câmera era burra, pois a imagem era mais contundente que a palavra.

 

“Ah… Um comprimido? Tem gente que rouba milhões! Vocês estão brandindo por um comprimido? Estamos falando de um remédio que foi deixado na mesa do chefe por um simples descuido e o cara, com dor de barriga, foi lá e simplesmente tomou”. Disse outro companheiro de repartição que brindava ostensivamente a reputação ilibada do funcionário exemplar. “Pra vocês verem! Uma cerveja que não foi contabilizada pelo garçom, ele questionou dizendo que ele não precisava disso! Agora vejam uma cervejinha fiada! Ele tem todo direito de roubar um comprimido!”

 

Suspeitas, dessa vez, caiam sobre Tomé! O que nunca aconteceu antes na história, houve! Tomé acusado veementemente de um furto, roubo, sei lá. Todos da repartição se entreolharam numa desesperança, numa descrença e num desespero jamais visto. Todos decepcionados com tal acontecimento. Um nome pairava no ar e uma frase se mesclava entre o trabalho e o descredito: “justo o Tomé?”. Há alguns que foram aos prantos, às lágrimas, aos murmúrios secretos, numa forma de aliviar tal sentimento. Tudo era irreal, um desproposito.

 

Tomé sentiu o desconforto no momento em que ia para o arquivo morto catalogar algumas fichas. O responsável negou a chave para ele, pois não acreditava numa pessoa que roubava comprimidos. Ele foi até seu computador e o gerente de patrimônio junto com um técnico do setor de processamento de dados foi checar os arquivos que constavam no HD do computador. Nem um retirado e nenhum copiado para outro dispositivo. Mesmo assim, Tomé se sentiu fustigado pelo isolamento da dúvida, do receio, do medo. Aliás, o medo constrói muros intransponíveis, cruéis em tos indiferença e intolerância. O medo é a intitulação dos que sentem honesto! A honestidade é a reprodução do medo!

 

Depois de ser renegado pelos corredores, sua tristeza se converteu em indignação! Ele resolveu barbarizar! A primeira coisa foi ir até a sala do chefe de repartição: “Fui eu! Eu que roubei o seu remédio!” Assumia! Assumia virilmente, tacitamente. Andava pelas sala a gritar: “Eu que roubei! Eu!” Sua honestidade se converteu eu papas na língua:

 

“Honesto? Há heróis pra isso! Eu não quero ser um babaca que proclama o bem e mal! Eu roubei porque é gostoso roubar! Passar a mão leve é a coisa mais deliciosa do mundo! E quer saber? Quando eu roubei o remédio, eu fiquei de pau duro! É! Fiquei! Fiquei em ponto de bala! Com vontade de fuder a mim mesmo! Eu roubei porque era inocente! Roubei por minha inteira vontade! Fi-lo porque qui-lo! Sine crimine, homo non vivit!” Aos berros, subia nas mesas da repartição, gritava, apontava! “Você é uma piranha que vive dando pro chefe! E você adora roubar dinheiro do caixa da firma do sogro! E você, meu querido, adora o marido da vizinha e sua vontade era trepar com ele! E você, chefinho, você adora se fingir de honesto para comover as pessoas! Eu não tomei o seu remédio, chefinho! Eu engoli uma balinha! Você se diz doente, mas se medica com balinha!

 

As desvirtudes eram derramadas ali mesmo, sob os entreolhos dos outros, da perplexidade e do medo de ser o próximo apontado. Muitos, na santa honestidade, confessavam seus segredos mais secretos a Tomé. Ele era uma bomba atômica que desfilava veneno em todos! E com isso gritava sobre si, na mais intensa loucura: “Sabe, eu? Adoro botar chifre na minha mulher! Adoro ver mulher com sutiã de rendinha! Adorei quando a mulher do chefe ia se abaixar e mostrava o capô de fusca com uma calcinha de rendinha! Puta que pariu, chefinho, tua mulher é gostosa pra caralho! Só não comi porque ainda não me deu condição, a cachorra! Mas pode deixar que depois de duas cervejinhas, chefinho, eu faço um filho na sua mulher!”. O chefe avançou em Tomé e ele bateu de quina com a mesa.

 

Traumatismo craniano! Paralisia completa!

 

Tomé não mais falaria, não mais andaria e nem mesmo veria a gostosa mulher do chefe, mas pensaria eternamente sobre sua condição vegetativa da honestidade. Ao término da apuração do fatos, dos vídeos da sala do chefe aonde aconteceu o roubo, uma surpresa, um engano. Não foi Tomé! O chefe, senta-se em sua cadeira confortável, pega o telefone e liga para a esposa: “Aló! Bota aquela calcinha de rendinha tá , amor to chegando! Eu chego em quinze minutos, palavra de honra! Pode crer, meu amor, to sendo honesto! Juro!”

CARTOLA SOB A PERSPECTIVA AUDITIVA DE DRUMMOND

"Cartola sob ausculta de um grande poeta"

Cartola sob ausculta de um grande poeta

Um poeta escrevendo crítica de música popular! Todavia, do jeito dele. A originalidade toma conta do texto intitulado: “Cartola, no moinho do mundo”, que ilustrou o Caderno JB no dia 27 de novembro de 1980. Angenor de Oliveira, o Cartola, estava mal. Dois dias depois veio a falecer, mas as palavras e o seu canto permaneceu e ficou cravado na poética de Drummond. O poeta estava na rua e se surpreendeu com tamanha delicadeza de uma música tocada numa loja de discos. A voz de Cartola colocava no chão de Drummond folhas secas e tornam-se tapetes para seu deleite. O poeta se esquecera do que fazia e se deu conta da magnitude de uma simplicidade, da força motriz movida pelo moinho de Cartola. Assim, deixo aqui a crônica de Carlos Drummond de Andrade em homenagem à Cartola. Uma preciosidade que arrepia, ao pensar que existe tantos críticos musicais ignóbeis.

Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo. 

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas). 

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente: 

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho…” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.


"O sol nascerá"

O Sol nascerá

Drummond

“O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante.”

CONTOS DE MME. MISAMPLI: Chanel nº5

a dor torna tudo mais lento

"A dor torna tudo mais lento"

Cheirando a Lancaster e Jack Daniel´s, Enrico desce as ruas de San Remo, passeando tropego pela Via Roma e manquitolando no Corso Orazio Raimondo. Ia para o nada, completamente tropeçando em si mesmo, numa eterna catástrofe de sua relação amorosa. Sentia, a cada quilometro, o peso da tristeza que caia sobre as seus ombros: castigo de Atlas. Os sintomas do whisky deram a ele uma sensação de coragem múltipla e de cavaleiro solitário. Bambeando como se visse o apocalipse chegar, percebeu que o caminho era oposto. Tinha que caminhar de volta, fazendo assim, um retorno vagaroso. Sua meta turva era o Hotel Bela Epoque, suas calças estavam frouxas e sua dignidade posta a prova. Ele gritava, gemia, urrava de dor, uma dor rascante, amarga, com todas as doses de feldade. Ele olhava os prédios, as romizetas, os lamborghines, o chão, a chuva caindo e sua febre. A calçada era um refúgio, junto com as marquises. As flores que nasciam nos cantos lhe davam uma certeza de um momento néscio: a gente morre sentindo dor. Perguntava para si mesmo: “é possível amar demais?”, Se auto respondia: “Sim, é possível”. Talvez não entendesse que o seu segredo de amor era o mesmo de Pittigrilli, o de “despedaçar malmequeres”. Jogava ao céus profanidades, juras de morte e promessas de retorno e vingança. Sentia espasmos no estomago e gritava: “O pior castigo do demônio era o abandono”. Sentia-se apto e adepto a todas as vilanias. Seus dedos ia até a boca e seus lábios se enchiam de corisa: era o choro nauseabundo de todas a sua alma. Ele passava a mão no peito como um enfartado, um cardiopata, exclamando veementemente “é possível sofrer tanto assim?”. Levantava-se e recuperava a sanidade e olha para uma linha horizontal e balbuciava: “ter que imaginar que ela é uma estranha, que eu não posso e nem devo dar bom dia, nem dizer que eu desejo tudo de mais belo e tudo de melhor e que faria de tudo… tudo para tê-la no mínimo por perto! Só para vê-la, senti-la em sua mais pura suavidez e graça, só para saber dela, pra ter uma migalha que fosse!”. Ria e dizia: “E eu pensava que eu era um canalha! Aliás, eu era! Não sou mais por causa dela… por causa desse cheiro maldito de Chanel nº 5. A noite se converteu em dor física, em presença ausente, em tempo moroso. Aliás, a dor torna tudo mais lento. A severidade e sua punição faziam com que pensasse em não medir seu atos, mas o pacto de um bêbado. Cantava baixo e ia num crescente a música de Tony Dallara, “Romantica”: “Tu sei romantica, /tu sei per me mia, non so. / Morir senza un tuo bacio adesso, /io ti prendo e ti spoglio, voglio, / desiderio tu dai, amore, sai. /Morir senza carezze adesso, / io ti sento, con te sto, resto, / tu volare mi fai, cadere mai.”. Tinha acabado de ganhar o Festival. Mesclava a primeira canção festival com a segunda, “Libero” de Domenico Mondugno: “Naviga naviga naviga naviga, scivola scivola scivola, / col vento va verso la libertà.”. Repetia, tropeçava, cantava: “Naviga! Scivola!”. Gritava: “Do que adianta navegar? Por que desliza? Se morir senza carezze adesso!” Chorava copiosamente. Ao chegar ao seu destino, encontra o seu quarto e seu sono, sua calma. Mas o cheiro permanece, o mesmo: a lembrança de um perfume, de uma fragrância. Ele jamais esqueceria, as notas.

Orlando acaba de chegar em casa: “Boa noite, Eunice!”. Eu respondo! E vejo que Enrico não teria um fim digno. Ele optou a morte, ou seja, o mesmo fantasma que me acompanha. Aliás, não escreverei o destino de Enrico, pois eu temo que seja o meu mesmo!

Assim seriam os meus anos dourados.


NASCE DE TUDO DA BARRIGA DA MÃE

mãe

"A sensibilidade não é um fator isoladamente da mulher, mas é dela que o nascimento se firma e a vida acontece."

Esse tubo infecto, segundo Marcelo Tas, chamado televisão tem as sua surpresas e suas dádivas. Talvez muitos me condenem, mas a televisão é algo que a rotina nos tinge. E é nessa mesma caixinha que vem frases como a de um padre sertanejo… Pois é, queridos, você leu bem: padre sertanejo. Já não basta os pastores surfistas e os monges pedófilos, temos que conviver com a existência de um padre que se diz cantor sertanejo. Talvez o Michel Teló e o Gustavo Lins estão se perguntando o porque que um segmento musical pode se tornar uma linhagem gospel. Pode ser pelo fato de que a necessidade de trazer novos fieis possibilitasse novas linguagens que atendam uma certa clientela (coisas do capitalismo).

Enfim, o fato de ser sertanejo não me deixou tão apoplético, mas foi a frase que o suposto padre falou no programa da Marília Gabriela que me deixou refletindo: “Nasce de tudo da barriga da mãe”.

A mãe será eternamente a culpada, lógico. E é claro que o fruto proibido é o que encareceu a vida da mulher para todo o sempre no mundo ocidental. A mulher participar de uma ágora na Grécia, por exemplo, era um fato irônico, a mulher na vida pública de Roma só poderá ser casta, ou seja, uma vestal guardiã do fogo da cidade. Na idade média ela tinha que ser objetivada para os enlaces patrimoniais se valendo de dote e continuidade do estabelecimento da propriedade da família, senão a própria natureza se encarregaria de encarecer a vida dela pelo fato de não ter se predisposto as núpcias, por não ter sido tão concebente como foi a Virgem Maria. A igreja é um símbolo feminino de resignação e disciplina, uma instituição que atende com advogada dos mais necessitados, que sabe cobrar após, por uma questão de justiça.

A condenação feminina é algo tão patente que faz com que a piedade seja um caminho para cortejar uma mulher. Entendê-la é um passo, assim como pagar a conta ou deixá-la se sentar. A fraqueza é enaltecida r a o esteriótipo se firma, bem como a delicadeza e os contornos finos. E estranho perceber que uma mulher hoje poderia ser mecânico ou policial, mas ela tem aquilo que masculinidade não possui: a minúcia. A sensibilidade não é um fator isoladamente da mulher, mas é dela que o nascimento se firma e a vida acontece. No sexo, o prazer mais intenso é o dela, porque o toque é genuíno e o fingimento uma arma. De tudo vem da barriga da mulher: o mundo. Esse mesmo mundo fascinante.

E para concluir, pergunta-se: o padre tem razão. Da mulher nasce de tudo, mas o pecado não é dela e sim de quem nasce, porque o rompimento do cordão umbilical mostra que o indivíduo nasceu para ser responsável pelo que cativas. Cicero está ai para nos confirmar disso.

De tudo vem da barriga da mulher: o mundo. Esse mesmo mundo fascinante.

"De tudo vem da barriga da mulher: o mundo. Esse mesmo mundo fascinante."

CAMILO CANTIZANO EM EDIÇÃO ESPECIAL: DOCUMENTOS SECRETOS DAS FORÇAS ARMADAS QUE ESTAVAM EM POSSE DO GENERAL ALMICAR PARASSAR SÃO ENCONTRADOS TOTALMENTE QUEIMADOS EM UM TERRENO BALDIO

Documentos foram completamente destruídos

Documentos do General Amilcar Peixoto Parassar foram completamente destruídos

BRASILIA – Foram encontrados em cinzas no Rio de Janeiro, num terreno desocupado ao lado do Batalhão da Policia do Exército, na Tijuca, os documentos confidenciais do Exército que estavam sob posse do General da Reserva, Amilcar Peixoto Parassar de 77 anos. Nesses documentos tinham detalhes da sua operação como Agente Condor do Governo Argentino de Rafael Videla, sua participação no extermínio de Guerrilheiros do Araguaia, seus métodos teóricos para o ensino de prática de tortura e sua suposta participação como espião na Operação Bomba do Banco Nacional e no Sequestro do Embaixador Alemão, Humboldt Weiss. Além de prontuários de possíveis desaparecidos políticos, documentos confidenciais, relatórios e dossiês, tinham esboços de planos para execução de possíveis terroristas e documentações oficiais e atestados de óbito. O secretário de direitos humanos, Manoel Paiva, ratifica como desastrosa a perda de tantos documentos importantes que seriam definitivos para o preenchimento de algumas lacunas na instauração da Comissão da Verdade. A presidente Dilma Rousseff, que era prisioneira política no período em que General Parassar estava a frente da OBAN, afirmou que providenciará, junto ao Supremo Tribunal Federal, a realização de uma audiência pública que averigue a danificação dos documentos oficiais. O General Parassar está sobre custodia da justiça argentina, a espera de julgamento, pela responsabilidade no desaparecimento de vinte pessoas e no sequestro de crianças argentinas entre o período de 76 a 81. General Parassar também é acusado de matar guerrilheiros brasileiros no período de 1969 a 1971, quando chefiou as dependências do Batalhão da PE do Rio de Janeiro. A sua saúde frágil interrompeu possíveis acareações e extradição. General Parassar sofreu um derrame que o paralisou de suas funções vitais. Está sob os cuidados de sua filha, Elisa Parassar.

Foto do terreno baldio ao lado do Batalhão da Polícia do Exército

Foto do terreno baldio ao lado do Batalhão da Polícia do Exército na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, no RJ

Alguns documentos eram de outras forças militares

Documentos encontrados eram também de outras forças. Faziam parte da integração do SNI (Serviço Nacional de Inteligência) na época do regime militar de 1964 a 1984

DIRETO DE PINHEIRINHO – “É TUDO A MESMA COISA!”

A mesma coisa?

"São a mesma coisa?"

(Em 1984. “Diretas Já!”, a redemocratização. Zé Torto entra no seu barraco na comunidade do Pinheirinho. Seu filho Julinho está brincando de bolinha de gude. Fogos de artificio. Madalena, a esposa, está esquentando o café.)

MADALENA – Julinho! Eu não vou pedir de novo! Vai tomar banho!

JULINHO – Eu não gosto de tomar banho na bacia! Eu quero tomar banho de balde!

MADALENA – É tudo a mesma coisa!

(Julinho sai. Entra Zé Torto)

MADALENA – Ô Zé! Eu pensei que você ia ficar até tarde no bar do Zacarias!

ZÉ – Não fiquei porque tá lá aquele bando de gente que acha que a democracia vai voltar!

MADALENA – E não é não? Será que vai ser igual?

ZÉ – É tudo a mesma coisa!

MADALENA – Pior que é mesmo! É tudo a mesma coisa! Nada vai mudar!

ZÉ – Vai continuar tudo, só que agora a gente vai ter que escolher o presidente!

MADALENA – E isso é democracia? Escolher o presidente?

ZÉ – Pois é! Mas vai ser tudo a mesma coisa, Madalena! Quem entrar vai ter que entrar no esquema!

MADALENA – Pois é! Então é melhor deixar como está, neh? Militar ou não! Tudo vai continuar! Tudo é a mesma coisa! Tudo é farinha do mesmo saco!

JULINHO – Mãe?

MADALENA – O que é garoto?

JULINHO – A janta vai ser sopa?

MADALENA – Sim! E de carcaça!

JULINHO – Não quero! Eu quero carne, mãe!

ZÉ – Para de reclamar, moleque! É tudo a mesma coisa! Tudo é comida! Dê graças a Deus o que tem!

(Entra ZELÃO. Ameaça ZÉ)

ZELÃO – Vc vai me pagar ou não, bexiga?

ZÉ – To sem emprego, Zelão!

ZELÃO – É melhor você arranjar um, porque se você não me der o que você me deve, você vai se despejado! Pra mim, bandido e você é tudo a mesma coisa!

(Entra a POLÍCIA)

POLÍCIAL – Eu vim com ordem da justiça! Todos terão que sair daqui agora!

ZENÃO – Eu sou o proprietário daqui!

POLICIAL – O proprietário é Naji Nahas! Pra mim, você e esse merdinha ai que mora aqui são a mesma coisa!

ZÉ – Eu tenho o direito de dizer “não”! E isso não é a mesma coisa! É produto da democracia dizer “não”!

MADALENA – Como é que é? Tá maluco, homem! Democracia?

POLÍCIAL – Aqui não tem democracia!

ZELÃO – O que é democracia?

(A TV liga. Todos estão na passeata das diretas. O Coringa)

CORINGA – Comparar a esquerda com a direita é um erro fundamental, mas existem aqueles que se posicionam na extrema esquerda e retornam a direita. O papel da direita é anular e criticar a esquerda, para que ela não alcance a unidade. A luta só é luta quando a união existe. A esquerda desunida ajuda a direita a se firmar!

ZÉ – Não é a mesma coisa! Aqueles que lutam pela verdadeira democracia não podem ser comparados com aqueles que nos expulsam!

MADALENA – Ué? Tá louco, Zé? Agorinha mesmo você disse que vai ser tudinho a mesma coisa!

ZÉ- O Zelão e o Policial são a mesma coisa, porque querem nos expulsar sem conversa! São intolerantes!

MADALENA – Pois eu não acredito em democracia não! Pra mim é tudo igual!

ZÉ – E hoje a gente tá sendo expulso, mulher!

JULINHO (entrando) – Mãe! Aprende uma coisa: carcaça e carne, não são a mesma coisa!

FIM

O peso e a pena

"O peso e a pena"

ELIS: A DAMA DO APOCALIPSE

Viva Elis!

"Sete rajadas correm, somem / E uma mulher Se entrega e se impõe ardente / Constante, serpente, vulgar / Rasga-se o sonho e o corpo sente a dor crescer / Abre-se a mente e o cego vê a luz nascer / Trava-se a guerra e o fogo faz a vida"

Eu e Dani Balbi temos gostos bem parecidos musicalmente. Existem certos detalhes em que nos divergimos: eu, completamente cafona e ela é mais moderninha. Eu assumo minha cafonice. Entretanto, há uma certa similaridade nisso tudo. Quando Dani era estudante do Ensino Fundamental, ela cantava no pátio de sua escola “Mestre Sala dos Mares” e eu cantava “Basta de Clamares Inocência”. O que nos empolgávamos é o fato de descobrir o trabalho e a trajetória de uma cantora tão extraordinária. Como nossos pais, ouvimos Elis Regina, e é através de uma história voltada ao trabalho de promover a música brasileira é que entendemos a sua importância e a influência de sua música. Existe uma linha que separa a MPB: antes e depois de Elis. Essa mulher vinda do sul, encantou plateias numa década de tantas transformações.

A briga nos camarins da TV Record com a cantora Maysa é um símbolo de um confronto de estilos: uma, sob a alcunha de “pimentinha” empolgava o festivais com “Arrastão” e “O cantador”, a outra tinha ainda resquícios de uma geração pré-bossa: ou seja “foça”, com todos os seus “r” e “s”. Elis acabou com isso e cantou Cyro Monteiro, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola, Hervê Cordovil, Cartola, Zé Ketti e tantos outros sambistas e compositores que endossavam o rótulo de Musica Popular Brasileira. Ela, através de um projeto televisivo chamado “O fino da bossa” trouxe uma inovação na linguagem da musical, ao lado de Jair Rodrigues. Era o momento de retratara a língua do povo, através de músicas como “Tiro ao Alvaro”

Em um país nublado e muitas chuvas com manchas torturadas, Elis expõe suas querelas e abre uma ferida em carne viva, vendo o exílio e o refúgio dos músicos e compositores. Sua voz, um instrumento registrado na Ordem dos Músicos, torna-se um hino contra o governo dos militares. Assim nasce uma cantora independente com o seu trabalho mais que reconhecido e que é completamente diferente da cantora “baby face” que cantava no “Clube do Guri” em Porto Alegre e que lançou um disco chamado “Viva Brotolândia”. O passado poderia condená-la, mas a projetou para os palco e lançou uma artista com um currículo invejável aos vinte anos. Já tinha em seu no hall o trabalho com Zimbo Trio e com Miele, e seu companheiro inseparável, Mielofone.

Se na TV já era um delírio, nos palco não seria diferente. Os shows e a sua própria discografia reproduziam um trabalho respeitável. “Falso Brilhante” e “Transversal do Tempo” representam o auge de sua carreira e a metonímia de sua obra. Ao cantar Ivan Lins, João Bosco, Belchior, Zé Rodrix, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gonzaguinha, Fátima Guedes e Ricardo Teixeira lança novos paradigmas na produção artista: a possibilidade de um cantor lançar novos produtos e dar emprego para muita gente. A Elis seria crítica e contestadora de sua própria classe e criaria novos desafios e sonhos para quem quisesse compor: “Eu dou o tiro, quem mata é Deus!”

Suas interpretações ficariam imortalizadas, mas sua produção vastíssima era invejável. “Rancho da Goiabada” era uma música contestadora da cultura brasileira, “Upa, Neguinho” era sua paixão pelo Teatro de Arena, “O corsário” era sua paixão pela produção mineira, “Chovendo na Roseira” era a reminiscência de seu trabalho através do piano de Tom Jobim, “Onze Fitas” era uma página policial com muito ódio, “Velha Roupa Colorida” era uma canção velha-nova que pedia novos tempos, “Casa do Campo” é era o desejo de fugir dessa vida urbana, “Conversa de Bar” era as novas perspectivas de uma vida histórica urbana, “Me deixas louca” era o romantismo bailado a dois, “Vou deitar e rolar” a vingança imperiosa acompanhada ao melhor estilo farsesco com direito a risos, “Romaria” uma canção de quem não sabe rezar e apenas o olhar é que diz, “Redescobrir” era a ciranda de um novo caminho para o povo, “Alô Alô Marciano” era a face roqueira e crônica, “Aprendendo a Jogar” uma moderna roupagem de uma nova Elis, “Trem Azul” era o divertimento de quem achava que cantar “faz bem pra pele”.

Entre tantas musicas, ela viu que tinha mais de vinte muros e viu as contas que contou por ter mais de vintes. Ela queria as cores, os colírios e os delírios, mas nada disso veio. Veio a morte prematura e o vazio no peito de quem canta. Elis, nos deixa! E seu trinta e seis anos seriam eternos. Neste anos de 2012, comemoramos os trinta anos de sua juventude e de sua lembrança, numa era repleta de Michel Teló! Viva Elis, sempre essa mulher!

Para Sempre, Elis

"Como nossos pais, ouvimos Elis Regina, e é através de uma história voltada ao trabalho de promover a música brasileira é que entendemos a sua importância e a influência de sua música."

DIRETO DE PINHEIRINHO: O AUTO DOS JACOBINOS

VILLEFORT – Todos para o front!

(Já é noite na frança. O plano vem sendo engendrado pelos membros da reunião. A lei máxima da constituição garante moradia para todos. Cap, Villefort se vê metido em uma grande confusão: reitegrar a posse de uma de seus condados para um de seus companheiros Tenente Nahas. a pedido de General Alckmim e do Major Cury. Agitação. Gritos . Confusão. A reunião é agitada. O grito de Villefort se instaura no recinto)

VILLEFORT – L’etat c’est nous!

JACOBINO 1 – Quem irá amarrar o sino no pescoço do gato?

JACOBINO 2 – Quem irá expulsar os invasores do condado do pinheirinho?

JACOBINO 3 – Quem irá levá-los até a Comarca do Piauí?

MAJOR CURY– Quem irá levar os condenados até a guilhotina de Sant´Paul?

VILLEFORT – Calma, amigos! Temos que pensar antes de agir! Temos a nosso favor a harmonia, a clareza e a razão : é necessário a higienização da nossa França! A Liberdade tem que ser uma garantia plena do Estado e só há liberdade se o Belo se configurar na região!

JACOBINO 1 – O que o senhor está me dizendo é prudente e vai de acordo com os ditames das clausula dos tucanos! Se nós expulsarmos os arruaceiros de lá, garantimos a propriedade!

JACOBINO 2 – Ponderemos a questão: temos 7 milhões de famílias em áreas de risco como essa! É preferível a rua do que um barraco que mal dá para sustentar uma família! Permitir que eles fiquem é ir de encontro aos princípios do homem natural!

JACOBINO 3 – Tantos arruaceiros! Tantos degenerados! É necessário limpar esses homens do vícios e levá-los à virtude! Os degenerados do ópio devem ser conduzidos aos manicômios!

MAJOR CURY – Devem ser expulsos e a nossa tropa deve estar em alerta!

VILLEFORT – Devemos pensar: este povo vota?

MAJOR CURY – Este povo não vota! Eles não sabem votar!

VILLEFORT – A democracia é para aqueles que sabem usá-la! A violência é para aqueles que querem dizer não! E a miséria é para aqueles que não veem o bem como solução!

JACOBINO 2 – Eles ficaram sem moradia!

JACOBINO 3 – São rústicos, grosseiros! É preciso higienizar toda a França!

VILLEFORT – Viva a liberdade!

TODOS – Viva!

VILLEFORT – Viva o cumpra-se do estado através do direito romano e universal!

TODOS – Viva!

VILEFORT – Viva o Estado de direito!

TODOS – Viva!

VILLEFORT – Viva a nossa tradição de associados: General Maluf, Major Pita e Marechal Covas!

TODOS – Viva!

VILLEFORT – Todos para o front!

(Todos vão saindo. Villefort faz o sinal da cruz. Entra o Coringa)

CORINGA – Aonde está o erro? A utilização do aparato policial é um pressuposto que define o tipo de governo que estamos encarando. A notoriedade fica por conta da barbárie que se instaura nos confrontos entre aqueles que lutam por uma causa justa e o tiro. Em São Paulo, o espetáculo repressivo atinge, inclusive, os que sofrem com a dependência do crack, os estudantes universitários e os professores que reivindicam por melhores salários e condições de trabalho. Podemos notar, claramente, que o governo do PSDB e do PSD é um desastre! E tal desastre se relaciona com o método de decapitação que esse governo quer fazer com a população: temos, assim, dado como instaurado, o mesmo terror jacobino francês em solo brasileiro. E, aprovando e aplaudindo sob a marca da mídia direitista, o paulista assiste e admite este terror sem fim, através de opiniões como: “isso é necessário”, “se não for isso,o que será?”, “Alguém tem que fazer o servissinho sujo”. Está é a mesma São Paulo que tem como tradição políticos esquizofrênicos como Maluf, Pita e Mario Covas e que agora, tem quem complete esta bela galeria: um governador que defende certas posturas repressoras, com a ajuda do ROTA, uma especie de BOPE de São Paulo. A restauração da ordem torna-se uma prática da utilização de força para apagar certas impressões. O terror instaurado na comunidade do Pinheirinho representa a mesma lógica aplicada ao professores paulistas no ano passado: política se faz no cassete! Muitos do Pinheirinho vão pra guilhotina! Muitos, talvez, assim como Robespierre, poderiam ser também Jacobinos!

FIM

O grande Jacobino

O grande Jacobino

CONTOS DE MME. MISAMPLI: “Can’t take my eyes off you”

Atrás de uma paixão, sempre existe uma dúvida! O receio de errar, como quem erra pela primeira vez. Ao tomar a primeira lotação, Celina teve um susto quanto subiu os primeiros degraus: ela se deparou com o inevitável! Nestorzinho era filho de um dos maiores magnatas do Estado da Guanabara e dono da fábrica das Pastilhas Valda. Ela estranhou o fato de estar ali e não conduzindo a sua mobilete envenenada. Entretanto, esse olhar perplexo só durou alguns segundos, o tempo sentar-se na fileira oposta do veículo. Nestorzinho a olhou e depois olho para frente. Ele riu! Um riso, um acinte! Ela ficou ruborizada dentro de seu uniforme escolar. Uma normalista ruborizada! Parecia um colírio para os marmanjos que estavam dentro da condução. Nestorzinho tirou de seu bolso uma derradeira goma de mascar e se pôs ao desfrute de mastigar ali na frente de todos, de uma forma completamente deliberada. Ela deslocou o seu campo de visão para a própria avenida que estava linda, cheia de gente.

Ao chegar ao ponto, ela desce. Ele a acompanha e a segura pelo braço. O susto, uma reação repentina e ele a olha serio. Ela se segura nele e ele a segura com firmeza. Ele diz: “Eu não paro de pensar em você”. Olhos condenados ao desejo ardente. Ela se sente no final de uma foto novela. Ele se risca a beijá-la. Ela esquiva e corre até o portão do colégio. Ele a fita de maneira certa, risonha e feliz. Ela o olha com um certo desespero. Neste momento, o que ela conhecia era a certeza de um erro, um erro eterno! Ela olha para os seus livros, olha para o relógio da parede da portaria. Ele a olha de maneira fixa e sorridente. Ele finalmente pega a sua mobilete na porta do estacionamento do colégio. Tudo estava planejado! Era pra constrangê-la! Isso ela pensou. Viu que sua hora era agora e foi a caminho da sala de aula. Sorriu para o nada e viu o erro! Pensou no erro! Pensou nos beijos!

E eu, como escritora, fechei a minha maquina e olhei Orlando sentado em sua poltrona. Fui até a cozinha pensando no verdadeiro erro de Celina: o fato de não corresponder-se os mesmos olhos que a olhava. Eu olhei para meu engano e vi que o erro só é desfeito diante de outro erro. Se a vida é uma sucessão de erros, eu seria a mais errada e a mais condenada. Celina teria como pecado o erro e eu o pior acerto.

Assim seriam meus anos dourados!